Computadoras – O Poder das Mulheres na Computação

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O XXXVI Congresso da Sociedade Brasileira de Computação (CSCB), que ocorreu no Centro de Eventos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC), entre 04 e 07 de julho de 2016, questionou o porquê de existirem tão poucas mulheres procurando este setor?

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O Congresso debateu, principalmente, a participação das mulheres neste mercado cheio de alternativas. E, de acordo com a avaliação da Sociedade Brasileira de Computação, para atrair mais mulheres, elas primeiro precisam ser “provocadas” desde cedo, lá na escola.

Segundo dados da SBC, menos de 10% das pessoas que trabalham com informática são mulheres.

Hoje, muitas empresas estão com dificuldades de conseguir mão de obra qualificada. Mais difícil ainda quando se procura por mulheres para preencher essas vagas. Algumas empresas chegam a fazer programas específicos para atraí-las.

Vale lembrar que as mulheres são muito importantes para esta área, pois possuem uma forma de pensar mais ampla, o que ajuda a realizar diversas atividades ao mesmo tempo, por exemplo.

Vale ressaltar que quem criou a profissão de programar computadores foi uma mulher.  E em uma época em que nem existia computador.

20140307211029_660_420Augusta Ada Byron, mais conhecida com Ada Lovelace (1815-1852), nasceu em Londres, filha do famoso poeta inglês Lord Byron e de Anne Isabella Milbanke, uma matemática cujo título era Princesa dos Paralelogramos, que encorajou a filha a estudar matemática.

A história de Ada está ligada à história de Charles Babbage e sua máquina de calcular. A primeira máquina de Babbage é denominado Engenho Diferencial, cujo objectivo era computar tabelas aritméticas.

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Parte da Máquina diferencial de Babbage, montada por seu filho usando peças encontradas no laboratório

Através de Mary Somerville, amiga de Ada e matemática responsável pela tradução do trabalho de Laplace (Mécanique Céleste) para o inglês, por volta de 1833, com 17 anos, Ada foi apresentada a Babbage e suas idéias sobre o Engenho Diferencial.

Após a apresentação do Engenho Diferencial, ocorreu a Babbage que a sua máquina já estava superada (obsoleta), que era necessário construir uma nova máquina, pois o Engenho Diferencial somente podia realizar adições e era preciso uma máquina que realizasse todas as operações matemáticas, o que resultou na criação do Engenho Analítico, cujos conceitos são utilizados ainda hoje pelos computadores modernos. O Engenho Analítico fazia uso, na sua programação, de cartões perfurados, desenvolvidos pelo tecelão francês Joseph-Marie Jacquard.

Em 1842, L. F. Menabreas escreveu um artigo sobre o funcionamento da máquina analítica de Babbage, cujo título era Notions sur la machine analytique de Charles Babbage. Aproximadamente dez anos depois, Ada traduziu o artigo de Menabreas, e suas anotações eram 3 vezes maiores que o artigo original.

Nas anotações, utilizando os números de Bernoulli como exemplo, Lovelace desenvolveu conceitos e estruturas que se assemelham com as estruturas utilizadas na programação atualmente. O exemplo utilizado por Ada seria mais tarde considerado como o primeiro programa de computador da história, cem anos antes do primeiro hardware ter sido construído.

Impressionado com as anotações de Ada, Babbage convidou-a para o ajudar no desenvolvimento do seu engenho. Ela participou do desenvolvimento dos exemplos para demonstrar o funcionamento do engenho de Babbage, fazendo desde cálculos até a produção de música. Todavia, o Engenho Analítico não foi construído, pois a falta de apoio público, de financiamento, as próprias excentricidades e falta de saúde de Babbage contribuíram para o abandono da máquina.

Em 1852, com 36 anos, Ada morreu de cancro. Para a homenageá-la, em 1979, o Departamento de Defesa Americano deu o seu nome a uma linguagem de programação, a linguagem ADA. E em 10 de dezembro de 2012, o Google lançou um doodle em homenagem ao aniversário de Ada Lovelace.

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Ada é considerada como a primeira mulher programadora de computadores do mundo. Ela inventou inúmeras técnicas de programação, entre elas, o comando condicional IF-THEN, o conceito de tipos, operadores, matrizes e loops, assim como a utilização do sistema binário ao invés do decimal. Apesar da importância da sua contribuição para o desenvolvimento da informática como a conhecemos hoje, Ada é citada por ter ajudado Babbage na documentação das idéias. Ela é recordada como filha de Lord Byron, o poeta, e não de sua mãe que era uma matemática famosa.

Outra mulher importantíssima foi Grace Murray Hopper (1906-1992).

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Hopper nasceu em Nova York. Em 1928, formou-se em Matemática e Física no Vassar College, continuando seus estudos na Universidade de Yale, onde defendeu o mestrado em 1930 e o doutorado em 1934 em Matemática. No ano de 1943, Hopper deixa seu cargo de professora no Vassar College e entra para a Marinha, no WAVES (Women Accepted for Voluntary Emergency Service – Mulheres Aceitas para Serviço Voluntário de Emergência).

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Essa mudança não surpreendeu quem a conhecia, pois Hopper vinha de uma família com tradições militares. Após a sua saída da Marinha Americana, Hopper foi designada para o Bureau of Ordinance Computation Project na Universidade de Harvard, onde trabalhou na programação da série de computadores Mark I.

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Por seu pioneirismo e sucesso na programação de aplicações para os computadores Mark I, Mark IIMark III, ela recebeu o Naval Ordinance Development Award.

Por volta de 1944, idealizou o conceito de sub-rotinas utilizado ainda nos dias de hoje, cujo objectivo era aproveitar módulos de comandos que fossem utilizados para diminuir o tempo e o esforço.

Hopper é a responsável pelos termos bug e debug. Em 1945, enquanto escrevia um programa para o computador Mark I, este parou de funcionar. Ao tentar encontrar o problema, achou uma mariposa (bug) interrompendo os circuitos da máquina e, ao retirá-la (debugging), a máquina voltou a funcionar. O Mark I era uma máquina enorme, com três quartos de milhão de peças, oitocentos quilometros de fios, várias rodas contadoras, mancais, garras de engate e relés.

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A mariposa foi colada com fita adesiva no seu relatório, que hoje se encontra num museu.  Até os dias atuais, sempre que há um erro num programa, diz-se que há um bug, e é necessário utilizar o debug para o resolver.

Ainda desenvolvendo o seu trabalho em Harvad, Hopper concebeu a idéia de escrever um programa que criasse um programa, ou nos termos atuais, construir um compilador.

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Em 1949 junta-se à Eckert-Mauchly Computer Corporation, cujo objectivo era produzir computadores comerciais. Em 1952, Hopper desenvolveu o primeiro de uma série de compiladores (A-0) que foi sendo aperfeiçoado com o tempo, resultando em mais duas versões (A-1 e A-2).

Como fazia a grande maioria dos técnicos, os nomes dados aos programas não eram comerciais, e quando a quarta versão do compilador (A-3) foi finalizado, o departamento de vendas nomeou o compilador de MATH-MATIC. Hopper achava que as linguagens deveriam ser mais amigáveis e desenvolveu uma linguagem baseada no inglês, o FLOW-MATIC, que foi a primeira e mais utilizada linguagem da época.

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Hopper exerceu grande influência na formulação de uma linguagem comum orientada para negócios, que deu origem ao acronimo COBOL (Common Business Oriented Language), linguagem utilizada ainda nos dias de hoje, e que foi baseada na linguagem FLOW-MATIC.

Aos 85 anos, em 1 de Janeiro de 1992, Hopper morreu e o seu funeral teve honras militares. Para a homenagear, a Marinha batizou um destroyer com o nome USS Hopper e uma moeda com sua esfinge foi produzida.

Devemos lembrar, também, das Pioneiras do ENIAC.

O Eniac, uma estrutura gigantesca com quase 18000 válvulas e pesando 27 toneladas o Electronic Numerical Integrator And Computer é considerado o primeiro computador eletrônico da história. A primeira máquina capaz de ser programada para execução de cálculos diferentes para objetivos diferentes.

O Corpo Voluntário Feminino para Emergências (WACS), durante a Segunda Guerra Mundial (1945), tinha um grupo de cerca de 80 mulheres cujo trabalho era realizar cálculos balísticos.  Eram conhecidas como as computadoras (as moças que computavam), termo pejorativo escolhido pelo exército americano.

Quando o exército concordou em financiar um projeto experimental para a construção do Eniac, seis mulheres foram selecionadas para serem as primeiras programadoras.

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  • Kathleen (Kay) McNulty Mauchly Antonelli;
  • Jean Jennings Bartik;
  • Fraces Synder (Betty) Holberton;
  • Marlyn Wescoff Melzer;
  • Frances Bilas Spence;
  • Ruth Lichterman Teitelbaum.

Um trabalho difícil, dado que naquela época, ainda ninguém tinha programado um computador, então não existia nada e ninguém com quem aprender. A única ferramenta disponível era um diagrama lógico em blocos do ENIAC.

É importante observar que esses cálculos eram considerados muito importantes para a guerra, e estas mulheres foram escolhidas pelas suas habilidades em matemática, além de entenderem que elas eram mais capazes e rápidas do que os homens para realizar os cálculos.

O ENIAC ficou pronto somente no final da Guerra e, ao invés de ser utilizado para o cálculo balístico, o seu objectivo inicial, foi utilizado para realizar cálculos relacionados com os estudos secretos das reações termo-nucleares, a bomba de hidrogênio.

Sua capacidade de processamento era de 5.000 operações por segundo.

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Esta máquina não tinha sistema operacional e seu funcionamento era parecido com uma calculadora simples de hoje. O ENIAC, assim como uma calculadora, tinha de ser operado manualmente.  A calculadora efetua os cálculos a partir das teclas pressionadas, fazendo interação direta com o hardware, como no ENIAC, no qual era preciso conectar fios, relês e sequências de chaves para que se determinasse a tarefa a ser executada. A cada tarefa diferente o processo deveria ser refeito. A resposta era dada por uma seqüencia de lâmpadas.

Sobre estas mulheres pioneiras que escreveram, ou melhor, programaram a história do ENIAC e da própria informática, assim como noutras áreas da ciência, as mulheres na informática permaneceram invisíveis e sua contribuição desconhecida.

A ótica androcêntrica do campo científico não só dificultou a participação feminina como também manteve as mulheres fora das oportunidades favoráveis ao reconhecimento.

Uma prova disso é filme “O Jogo da Imitação”, de Morten Tyldum, que conta a incrível trajetória de Alan Turing, um matemático inglês conhecido por quebrar códigos de mensagens secretas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, cientistas trabalharam para os Aliados (EUA, Reino Unido e União Soviética) na tentativa de decodificar as máquinas Enigma, uma espécie de bisavó dos sistemas de criptografia modernos.

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O papel de Turing no desenvolvimento da ciência da computação é incontestável, bem como toda a sua influência na formalização do conceito  do que viria a ser o computador,de algoritmo, da própria ciência da computação e da inteligência artificial. E apesar de ter tido papel fundamental para a vitória do seu país e dos outros Aliados na 2ª Guerra Mundial, sua contribuição no conflito permaneceu secreta por meio século. Mas o que o filme mostra – e que pouquíssimos sabem – é que por trás de Turing existia uma mulher: Joan Clarke.

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Turin morreu cedo. Gay assumido, foi humilhado publicamente por ser homossexual em uma Inglaterra onde, há apenas 60 anos, isso era ilegal.  Processado criminalmente por sua opção sexual, teve de escolher entre a castração química ou a prisão. Optou pela primeira opção e se suicidou, em 1952, pouco antes de completar 42 anos. Joan acompanhou todo o drama do matemático bem de perto. Amiga, confidente e ex-noiva de Turing, ela foi uma das mentes brilhantes responsáveis pela quebra das mensagens secretas nazistas. Pena nunca ter levado os créditos por contribuir de maneira bastante ativa no que pode ter dado fim à Segunda Guerra. Na tecnologia, infelizmente, as mulheres atuam de “maneira discreta”, nunca como protagonistas e sempre como figurantes – um retrato do sexismo que lamentavelmente ainda está presente nas startups e nas grandes companhias cuja cerne é inovação.

Joan foi a única mulher a trabalhar no projeto de decodificação das máquinas Enigma ao lado de Turing. Estudou na Universidade de Cambridge e foi recrutada por um coordenador da instituição para entrar na Government Code and Cypher School (GCCS). Se dedicou à matemática, ganhou destaque acadêmico mas mesmo assim recebia menos do que seus colegas homens. Depois de passar alguns dias trabalhando isolada no projeto Enigma, finalmente ganhou uma mesa ao lado de Turing e outros cientistas da época.

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Foi nesse período que as duas mentes brilhantes, Joan e Turing, descobriram coisas em comum e ficaram próximos. O matemático, apesar da homossexualidade, pediu Joan em casamento, mas diante das circunstância, é claro, o noivado não foi adiante. Continuaram melhores amigos até a morte do cientista. Louvavelmente, Turing foi reconhecido como uma das personalidades mais importantes do mundo da tecnologia apesar de todo preconceito que sofreu na década de 1950. Por outro lado, como outras mulheres poderoras, Joan “apenas” foi esquecida pela história.

“O Jogo da Imitação” não muda o passado e nem faz de Joan um nome para ser recordado por gerações futuras, mas explora dois assuntos muito contemporâneos: o poder das minorias e a amizade genuína entre duas pessoas indiferente de gênero e opção sexual.

Não devemos ser poucas em salas de cursos universitários e técnicos de informática e tecnologia pelo Brasil, devemos nos organizar para dar um jeitinho nisso.

Não há limites para a capacidade intelectual feminina. Se o desejo das meninas é escrever linhas de código! Façam isso. Se quiserem desenvolver super sistemas embarcados. Pá! Desenvolvam. Se querem só brincar fazendo algumas linhas de código. Pá! Brinquem. E se quiserem revolucionar o mundo mesmo sem ter seu código fonte. Pá! Revolucionem. Por que nós, mulheres, somos capazes.

Autor: Emmanuelle Richard

Desenvolvi meu primeiro aplicativo aos 12 anos e desde então minha vida mudou. Já palestrei em diversos eventos como a Campus Party, Flisol, PhP Experience e outros, mostrando a todos que programar é divertido além de ser uma atividade fascinante, e, graças à programação, tenho conhecido muitas pessoas inspiradoras fascinando-me cada vez mais com este novo mundo que surgiu à minha frente. Contato: Email: emmanuellerichard@onbit.com.br Telefone: 84 9 86229868/ 84 9 88296900